Sistemas de equações lineares
Um sistema linear de equações é um conjunto de m equações lineares com n incógnitas. Ao resolver o sistema, obtemos valores que podemos substituir nas nossas n incógnitas de modo que todas as equações façam sentido.
Definição de um sistema de equações lineares
Você certamente já encontrou algum sistema simples do tipo
em que a11,…,a22, b1, b2 são números reais dados e x e y são as incógnitas. Esse sistema de equações pode ter um número diferente de soluções — nenhuma, uma ou infinitas, como uma equação do 1º grau comum. No caso de um sistema de equações lineares, a questão do número de soluções e de como encontrá-las é mais complicada do que no caso de uma simples equação do 1º grau.
Definição de um sistema de equações lineares:
em que a11, …, amn, b1, …, bm são números reais. Esse sistema é chamado, então, de sistema de m equações lineares com n incógnitas x1, …, xn e coeficientes a11, …, amn. Um exemplo concreto de sistema de equações lineares poderia ser assim:
Mas, se algum aij é negativo, é costume escrever nesta forma:
Mas continua valendo que a12 = −2 e a24 = −10.
Notação matricial
Podemos converter esse sistema para a forma matricial. Definimos três matrizes no total: uma para os coeficientes, uma para o lado direito das equações e uma para as próprias incógnitas. As matrizes ficam assim:
A matriz A contém os coeficientes das equações originais e a chamamos de “matriz dos coeficientes”, a matriz b contém os lados direitos das equações e a matriz x contém as incógnitas. Então podemos escrever o sistema de equações inteiro como a equação
Essa equação faz sentido, porque no lado esquerdo temos o produto de duas matrizes e no lado direito temos uma matriz, e as ordens delas são compatíveis. Podemos tentar multiplicar o lado esquerdo. Multiplicamos uma matriz de ordem m × n por uma matriz de ordem n × 1, então a matriz resultante será de ordem m × 1, terá m linhas e uma coluna. Por enquanto, está tudo certo.
Agora aplicamos o algoritmo clássico de multiplicação de matrizes, começando com a primeira linha da matriz A e com a primeira coluna da matriz x (não há outra coluna). Obtemos:
Com essa soma, obtivemos o primeiro elemento da nova matriz, ou seja, o valor b1. Substituindo tudo na equação, temos:
Obtivemos exatamente a primeira equação do nosso sistema de equações. Do mesmo modo continuaríamos com as outras linhas. Definimos ainda a matriz ampliada do sistema, que é a matriz dos coeficientes à qual acrescentamos a matriz b assim:
Em seguida, vai nos interessar o posto dessa matriz ampliada do sistema. Representamos o posto da matriz original (não ampliada) dos coeficientes por posto(A), e o da ampliada, por
Teorema de Rouché-Capelli
O posto da matriz ampliada será importante para nós, porque vale um teorema importante, o teorema de Rouché-Capelli: O sistema de equações Ax = b tem solução se e somente se o posto da matriz dos coeficientes é igual ao posto da matriz ampliada do sistema:
Vamos tentar mostrar que esse teorema vale pelo menos em um sentido — se x = β é solução da equação Ax = b, então
E afirmamos que, se substituirmos x1 por β1 etc., todas as equações do sistema de equações serão verdadeiras:
Agora reescrevemos um pouco as equações. Se olharmos para a primeira colunazinha, veremos que ali sempre temos os valores a11, a21, …, am1, que multiplicamos pelo mesmo valor β1. Se isolarmos a colunazinha em uma matriz separada, podemos colocar em evidência o valor β1 diante da matriz, obtendo:
Agora podemos reescrever assim o sistema inteiro:
Para que essa equação valha, a matriz do lado direito deve ser uma combinação linear das matrizes-coluna do lado esquerdo, e os valores β1, …, βn devem ser os coeficientes dela.
Com isso, demonstramos que, para que a matriz β seja solução do sistema de equações, o lado direito do sistema, a matriz b, deve ser uma combinação linear das colunas da matriz dos coeficientes. E, se a coluna da matriz b é uma combinação linear das colunas da matriz A, então a matriz A deve ter o mesmo posto que a matriz
Ao mesmo tempo, vale que, se
Operações elementares com as linhas
Além disso, pela equação anterior se vê que, se realizarmos na matriz
Se detalharmos a segunda linha, obtemos:
Eliminamos os parênteses:
Agora só reorganizamos um pouco:
No primeiro parêntese temos, na verdade, a primeira linha e, no segundo parêntese, a segunda linha original. Sabemos que a primeira linha é igual ao valor b1 e a segunda linha é igual ao valor b2. Sabemos isso pelas equações originais. Então, no lugar do primeiro parêntese podemos escrever b1 e, no lugar do segundo, b2:
Do mesmo modo, podemos multiplicar uma linha inteira por uma constante c ≠ 0 sem alterar a validade do sistema de equações. Atenção, porém: não podemos realizar operações com colunas.
Sistema com uma única solução
Com um exemplo, vamos mostrar como resolver um sistema que tem exatamente uma solução. Considere este sistema de equações:
A matriz A ficará assim:
Agora calculamos o posto dessa matriz:
Vemos que posto(A) = 3. Disso decorre também que
Eliminação de Gauss
A eliminação de Gauss consiste em transformar a matriz ampliada do sistema em forma escalonada. Ao transformarmos a matriz em forma escalonada, conseguiremos descobrir o valor de uma incógnita. Depois de encontrarmos o valor de uma incógnita, podemos começar a substituir esse valor nas outras equações.
A matriz
Vamos transformá-la em forma escalonada. Faremos as mesmas operações do passo anterior, só que desta vez as aplicaremos também à quarta coluna:
Como realizamos operações elementares com as linhas, essa matriz descreve um sistema de equações equivalente — um sistema que tem o mesmo conjunto solução. Vamos reescrever o sistema da notação matricial para a usual, usando os coeficientes da nossa última matriz:
Agora partimos da última equação. Ela nos diz que 78x3 = 312. Que valor deve ter x3? É uma simples equação do 1º grau, então
Temos o valor da primeira incógnita, x3. Substituímos esse valor na segunda equação. Obtemos a equação:
E, por fim, substituímos os dois valores calculados na primeira equação:
O valor da incógnita x1 é igual a dois. Neste momento, temos a solução completa. Podemos escrever que x = (x1, x2, x3) = (2, 5, 4). Como se vê, a eliminação de Gauss é um método simples, mas eficaz, para resolver um sistema de equações lineares.
Infinitas soluções
Se
Vemos que a segunda equação é igual ao triplo da primeira equação. Se multiplicarmos a primeira equação por menos três e somarmos à segunda linha, obtemos:
Neste momento, o número de incógnitas é igual a dois, n = 2, o posto da matriz dos coeficientes é igual a um, posto(A) = 1, e o posto da matriz ampliada também é igual a um,
Olhamos para as equações. A segunda equação é satisfeita para todos os x1, x2, então só nos interessa a primeira equação. Na verdade, todos os pares x1, x2 que satisfazem a primeira equação formarão o conjunto de todas as soluções do sistema de equações dado. Então calculamos a solução da equação 4x1 + x2 = 5. Transformamos a equação na forma x2 = 5 − 4x1.
Em seguida, vamos nos ajudar com um parâmetro. Escolhemos um parâmetro t. Agora vamos tentar expressar o par x1, x2 por meio do parâmetro t, de modo que possamos escrever que, por exemplo, todos os pares da forma (t, t + 2) são solução do sistema. Ou seja, pares como (1, 3) ou (14, 16). O objetivo é expressar o valor de uma incógnita por meio de outra incógnita, de modo que saibamos que, quando o valor de x1 for tal e tal, o valor de x2 será, por exemplo, três vezes maior. Como ponto de partida, escolhemos x1.
Impomos, então, a igualdade t = x1. Se a incógnita x1 tiver o valor t, que valor terá a incógnita x2? Vemos isso pela equação anterior: terá o valor x2 = 5 − 4x1. Ou seja, se x1 = t, então x2 = 5 − 4t. Podemos escrever, então, que todos os pares da forma (t, 5 − 4t) são solução do sistema de equações.
Podemos conferir. Se substituirmos t por um, temos: x1 = 1 e x2 = 5 − 4 · 1 = 1. Substituímos esses valores na equação: 4 · 1 + 1 = 5, a equação confere.
Se substituirmos t por cinco, temos: x1 = 5, x2 = 5 − 4 · 5 = −15. Substituindo na equação, temos: 4 · 5 − 15 = 5. Confere.
Solução geral e solução particular
A solução de um sistema de equações escrita por meio de parâmetros é chamada de solução geral. Uma solução concreta, isto é, quando substituímos os parâmetros por números concretos, é chamada de solução particular.
Então, do exemplo anterior: (x1, x2) = (t, 5 − 4t) é a solução geral do sistema de equações, e (1, 1) e (5, −15) são soluções particulares.
Se temos a matriz dos coeficientes A e a matriz ampliada do sistema
Exemplo
Resolva o seguinte sistema de equações lineares:
Primeiro calculamos o posto das matrizes A e
Dessa última matriz já vemos que
Da segunda equação obtemos
Escolhemos o primeiro parâmetro, t = x3. Então podemos escrever que x1 = −6t. Podemos substituir isso na primeira equação:
Entra em jogo o segundo parâmetro, s = x4. Então podemos escrever que
Com isso obtemos a solução geral do sistema:
Podemos experimentar algumas soluções particulares. Por exemplo, s = t = 0. Então obtemos:
obtemos as equações:
Depois de eliminar os elementos nulos e de multiplicar as frações, obtemos:
Vamos tentar outra solução particular: s = 2, t = 1. Então obtemos:
Substituímos nas equações:
Simplificamos:
E, por fim, obtemos:
Parece que a solução geral obtida está correta.
Capítulos: Sistemas de equações lineares, Regra de Cramer, Sistemas lineares homogêneos