✖

Exercícios resolvidos de dinâmica

Entendemos melhor as forças calculando com elas. Esperam por você treze exercícios, da composição de forças, passando pelas leis de Newton, a quantidade de movimento e o atrito, até a curva e a força de inércia. Três deles (o escorregador, a frenagem na neve e a arrancada do trem) ligam as forças ao movimento: a partir das forças calculamos a aceleração e, a partir da aceleração, a velocidade ou a distância. Seguimos o procedimento já testado: anotação, esboço das forças, sentido positivo, resolução geral, substituição com as unidades e resposta com uma frase completa. Desenhe você mesmo o esboço, só o primeiro exercício tem figura. Tente cada exercício primeiro sozinho.

Exercício 1: Dois tratores e uma colheitadeira atolada

Uma colheitadeira atolou na lama. Para tirá-la, dois tratores a puxam, cada um com um cabo, com força de 30 kN. Os cabos formam um ângulo β = 60° e a colheitadeira fica exatamente no eixo entre eles. Qual é o valor da resultante?

Duas forças F⃗_1 (em vermelho) e F⃗_2 (em azul) a partir do ponto laranja, que representa a colheitadeira, cada uma desviada do eixo pelo ângulo α, e a resultante verde F⃗ ao longo do eixo

Resolução:

F1=F2=30kN=30.000Nβ=60°F= ? (N)

Escolhemos o eixo x ao longo do eixo entre os cabos, positivo no sentido da tração. Como a colheitadeira está no eixo, cada cabo se desvia dele pela metade do ângulo entre os cabos, α=β2=30°. Decompomos as duas forças em componentes. As componentes perpendiculares ao eixo têm o mesmo módulo e são opostas, e assim se anulam. Ao longo do eixo sobram duas componentes iguais F1 · cos α:

F=2⋅F1⋅cos⁡α=2⋅30.000N⋅cos⁡30°≈51.962N

A resultante é de cerca de 52 kN, não 60 kN. Parte da tração é desperdiçada, porque cada trator puxa um pouco para um lado. Quanto mais os cabos se abrem, maior a perda: com ângulo β = 120° entre os cabos, α = 60° e a resultante é 2 · 30.000 N · cos 60° = 30.000 N, como se puxasse um único trator.

Exercício 2: Lancha a motor

Uma lancha de massa 300 kg, com a tripulação, é impulsionada para a frente pela água, graças à hélice, com força de 900 N. A resistência da água é 300 N. Que aceleração a lancha tem?

Resolução:

m=300kgF1=900N, F2=300Na= ? (m/s2)

Tomamos como positivo o sentido da navegação. A resistência aponta contra ele, então entra na resultante com sinal de menos. Depois é só somar as forças e dividir pela massa:

a=F1−F2m=900N−300N300kg=2m/s2

As unidades conferem, newton por quilograma é metro por segundo ao quadrado. A lancha tem aceleração de 2 m/s2. A resistência da água cresce com a velocidade e, quando chegar a 900 N, a resultante será nula e a lancha andará com velocidade constante.

Exercício 3: Caminhão e carro de passeio

Um caminhão de massa 10.000 kg bate num carro de passeio de massa 1.000 kg. Qual dos corpos age sobre o outro com a força maior? Que acelerações eles têm, quando a força da batida é 50.000 N?

Resolução: A maioria das pessoas aposta no caminhão. As forças da batida, porém, formam um par ação-reação e por isso têm o mesmo módulo e são opostas. O caminhão empurra o carro com 50.000 N e o carro empurra o caminhão também. A diferença está no que a força faz com o corpo.

m1=10.000kg, m2=1.000kgF=50.000Na1= ? (m/s2), a2= ? (m/s2)

Escolhemos como positivo o sentido de marcha do caminhão:

a1=−Fm1=−50.000N10.000kg=−5m/s2a2=Fm2=50.000N1.000kg=50m/s2

O caminhão tem aceleração de −5 m/s2, ou seja, desacelera, enquanto o carro ganha aceleração de 50 m/s2, cerca de cinco vezes a aceleração da gravidade. É por isso que quem sofre mais são os ocupantes do carro, embora as forças sejam iguais.

Exercício 4: Balança num elevador que desce

Rodrigo, de massa 80 kg, está num elevador em cima de uma balança. O elevador desce e, antes do térreo, freia com desaceleração de 1,5 m/s2. O que a balança mostra?

Resolução: O sentido positivo será para cima. O elevador desce e desacelera, então a aceleração dele aponta para cima: a = 1,5 m/s2.

m=80kga=1,5m/s2N= ? (N)

Rodrigo é puxado para baixo pela força peso e levado para cima pela força normal da balança. Pela segunda lei, N − m · g = m · a, então a força normal sai como no elevador que arranca para cima:

N=m⋅(g+a)=80kg⋅(9,81m/s2+1,5m/s2)=904,8N

A balança divide a força pela aceleração da gravidade e mostra Ng=904,8N9,81m/s2≈92kg. Em repouso mostraria os seus 80 kg reais. Rodrigo se sente mais pesado, embora esteja descendo. Importa o sentido da aceleração, não o sentido do movimento.

Exercício 5: O rover em Marte

O rover Perseverance tem massa de 1.025 kg. Qual é a força peso que age sobre ele na Terra e qual em Marte, onde a aceleração da gravidade é 3,71 m/s2?

Resolução:

m=1.025kgg=3,71m/s2P= ? (N)

A força peso é a massa vezes a aceleração da gravidade. Em Marte

P=m⋅g=1.025kg⋅3,71m/s2≈3.803N,

na Terra, pelo mesmo cálculo com g = 9,81 m/s2

P=1.025kg⋅9,81m/s2≈10.055N.

Em Marte age sobre o rover uma força peso de cerca de 3,8 kN, um pouco mais de um terço dos 10 kN terrestres. A massa dele, é claro, é igual em toda parte e, com a mesma força, arranca com a mesma má vontade.

Exercício 6: Saque de tênis

Um tenista saca uma bola de massa 57 g, que no ponto mais alto do lançamento está quase parada. A raquete a toca por 5 ms e a bola sai com velocidade de 50 m/s. Com que força média a raquete age sobre ela?

Resolução:

m=57g=0,057kgv0=0m/s, v=50m/sΔt=5ms=0,005sF= ? (N)

Escolhemos o sentido positivo no sentido do voo da bola. A força é igual à variação da quantidade de movimento no tempo em que age, isto é, o impulso dividido pelo tempo da batida:

F=ΔQΔt=m⋅(v−v0)Δt=0,057kg⋅50m/s0,005s=570N

Isso é mais ou menos como se sobre a bola estivesse uma pessoa de massa 58 kg, só que por apenas cinco milésimos de segundo. A raquete empurra a bola com força média de 570 N. Com um contato duas vezes mais longo, para a mesma velocidade bastaria metade da força.

Exercício 7: Jogadores de hóquei no gelo agarrados

Um jogador de hóquei de massa 90 kg anda a 6 m/s e colide de frente com um adversário de massa 80 kg, que vem ao encontro dele a 4 m/s. Depois da colisão eles se agarram. Com que velocidade e para onde eles se movem?

Resolução: O sentido positivo aponta para onde anda o primeiro jogador e a velocidade do adversário é, por isso, negativa.

m1=90kg, v1=6m/sm2=80kg, v2=−4m/sv′= ? (m/s)

No gelo o atrito é pequeno e a colisão curta, por isso tomamos a dupla como sistema isolado. Pelo princípio da conservação da quantidade de movimento, a quantidade de movimento antes da colisão é igual à de depois:

m1⋅v1+m2⋅v2=(m1+m2)⋅v′

v′=m1⋅v1+m2⋅v2m1+m2=90kg⋅6m/s+80kg⋅(−4m/s)170kg≈1,29m/s

O resultado é positivo, então a dupla desliza para onde andava o jogador de maior massa e velocidade, a cerca de 1,3 m/s. Quem esquecer o sinal obtém absurdos 5,1 m/s.

Exercício 8: O banco no ginásio

Um banco de madeira de massa 25 kg está sobre o piso de madeira. O coeficiente de atrito estático é 0,5, o cinético 0,3. Uma força horizontal de 100 N o põe em movimento? E que aceleração o banco terá quando o empurramos com a força de 130 N?

Resolução:

m=25kgμe=0,5, μ=0,3F1=100N, F2=130Na= ? (m/s2)

No piso horizontal, a força normal é igual à força peso, N = m · g. O maior atrito estático é

μe⋅m⋅g=0,5⋅25kg⋅9,81m/s2≈123N.

A força de 100 N é menor, o banco fica parado e o atrito estático tem exatamente 100 N. A força de 130 N o tira do lugar e, a partir daí, só o atrito cinético o freia. Escolhemos o sentido positivo no sentido do empurrão:

a=F2−μ⋅m⋅gm=130N−0,3⋅25kg⋅9,81m/s225kg≈2,26m/s2

O banco sai com aceleração de cerca de 2,3 m/s2. Com cem newtons não o movemos de jeito nenhum.

Exercício 9: Escorregador

Uma criança desce do repouso por um escorregador de 4 m de comprimento e inclinação de 30°. O coeficiente de atrito cinético da bermuda com o escorregador é 0,3. Com que velocidade ela chega embaixo?

Resolução:

α=30°, μ=0,3s=4m, v0=0m/sv= ? (m/s)

Escolhemos o sentido positivo para baixo ao longo do escorregador. A componente da força peso ao longo da encosta é m · g · senα, o atrito μ · m · g · cos α aponta contra o movimento. Depois de cancelar a massa, sobra a aceleração na encosta com atrito, a = g · (senα − μ · cos α). Para ter ideia, sai cerca de 2,36 m/s2.

Não conhecemos o tempo, então a velocidade embaixo vem da relação sem o tempo v2 = 2 · a · s. Substituímos nela a aceleração em geral:

v=2⋅g⋅s⋅(senα−μ⋅cos⁡α)=2⋅9,81m/s2⋅4m⋅(sen30°−0,3⋅cos⁡30°)≈4,34m/s

A criança chega com velocidade de cerca de 4,3 m/s, ou seja, menos de 16 km/h. Sem atrito seriam mais de 6 m/s.

Exercício 10: Ciclista na curva

Qual é a velocidade máxima com que um ciclista pode fazer uma curva horizontal de raio 12 m em asfalto seco, com coeficiente de atrito 0,7? E com que velocidade no molhado, com coeficiente 0,5?

Resolução:

r=12mμ=0,7vmax= ? (m/s)

O ciclista é mantido na circunferência só pelo atrito dos pneus, que aponta para o centro da curva. Ele precisa bastar para a força centrípeta, m⋅v2r≤μ⋅m⋅g. A massa se cancela:

vmax=μ⋅g⋅r=0,7⋅9,81m/s2⋅12m≈9,1m/s

Isso dá cerca de 33 km/h. No molhado sai, pelo mesmo cálculo, 7,7 m/s, menos de 28 km/h. A massa se cancelou, então um ciclista de massa maior não tem mais facilidade nem mais dificuldade. Com velocidade maior, as rodas escapam para fora da curva.

Exercício 11: A caixa numa van que freia

Numa van, sobre o piso de madeira, está uma caixa de ferramentas de madeira de massa 30 kg, o coeficiente de atrito estático é 0,5. O motorista freia com desaceleração de 6 m/s2. Avalie a situação de dentro da van: a caixa desliza para a frente?

Resolução: A van freia, então é um referencial não inercial. Nele, sobre a caixa age, além disso, a força de inércia oposta à aceleração da van, ou seja, para a frente. Escolhemos o sentido positivo para a frente.

m=30kg, μe=0,5a=−6m/s2

A aceleração da van aponta para trás e, por isso, é negativa. A força de inércia e o maior atrito estático:

Fin=−m⋅a=−30kg⋅(−6m/s2)=180Nμe⋅m⋅g=0,5⋅30kg⋅9,81m/s2≈147N

A força de inércia saiu positiva, então aponta para a frente. O atrito não segura a caixa, ela desliza para a frente. Só a seguraria até a desaceleração μe · g ≈ 4,9 m/s2, a massa se cancela. De fora a situação parece igual, só que sem força de inércia: para a desaceleração de 6 m/s2 a caixa precisaria de atrito de 180 N, mas o atrito estático dá no máximo 147 N. A caixa, por isso, desacelera menos do que a van.

Exercício 12: Frenagem na neve

Numa estrada coberta de neve, um carro anda a 45 km/h e o motorista freia de modo que as rodas travam. O coeficiente de atrito cinético dos pneus na neve é 0,3. Qual é a distância de frenagem e quanto tempo a frenagem dura?

Resolução:

v=45km/h=12,5m/sμ=0,3sf= ? (m), t= ? (s)

O sentido de marcha será o positivo. Só o atrito desacelera o carro, m⋅|a|=μ⋅m⋅g, então a desaceleração é |a|=μ⋅g. Substituímos na fórmula da distância de frenagem:

sf=v22⋅μ⋅g=(12,5m/s)22⋅0,3⋅9,81m/s2≈26,5mt=vμ⋅g=12,5m/s0,3⋅9,81m/s2≈4,2s

O carro para depois de 26,5 m e freia por mais de quatro segundos. No seco, com coeficiente 0,7, bastariam 11,4 m. A massa não aparece na fórmula, então também um carro totalmente carregado freia do mesmo jeito, pelo menos nesta simplificação.

Exercício 13: Arrancada de um trem

Um trem de massa 400 t arranca da estação. Os trilhos empurram o trem para a frente, pelas rodas da locomotiva, com força de 200 kN, as resistências ao movimento são 40 kN. Em quanto tempo e depois de que distância ele atinge a velocidade de 90 km/h, se as forças não mudam?

Resolução:

m=400t=400.000kgF1=200.000N, F2=40.000Nv=90km/h=25m/st= ? (s), s= ? (m)

Escolhemos o sentido positivo no sentido da marcha. Primeiro a dinâmica, a lei da força:

a=F1−F2m=160.000N400.000kg=0,4m/s2

Depois a cinemática do movimento uniformemente variado a partir do repouso e a relação sem o tempo:

t=va=25m/s0,4m/s2=62,5ss=v22⋅a=(25m/s)22⋅0,4m/s2≈781m

Prova real: a velocidade média é 12,5 m/s e em 62,5 s isso dá os mesmos 781 m. O trem precisa de cerca de um minuto e menos de um quilômetro. Na realidade a resistência cresce com a velocidade e, por isso, a arrancada dura um pouco mais.

O fim da viagem

Com isso termina o livro de cinemática e dinâmica. Começamos pelo que são grandeza e unidade, passando pela velocidade e pela aceleração chegamos às forças e às leis de Newton e, por fim, juntamos as duas coisas: a força diz qual é a aceleração e a aceleração, para onde e com que rapidez o corpo chega. Com esse par você dá conta da maioria dos exercícios sobre movimento e forças. Trabalho e energia virão mais tarde.