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Plano inclinado

Vítor coloca o trenó numa colina coberta de neve e o solta. O trenó sai em movimento e, no caminho, ganha velocidade. Enquanto isso, só a Terra o puxa para baixo, e a força peso aponta verticalmente para baixo, não obliquamente pela encosta. Por que ele não cai perpendicularmente ao chão, mas desce ao longo da colina? E por que numa encosta suave ele desce mais devagar do que numa íngreme? As duas coisas se explicam por um truque: decompomos a força peso em duas componentes.

A encosta, o escorregador, a rampa e a tábua inclinada se chamam, na física, plano inclinado. O ângulo α que ele forma com o chão horizontal indica o quanto ele é inclinado.

Decomposição da força peso

Substituímos a força peso P→ por duas forças que, juntas, agem do mesmo modo. Uma aponta ao longo da encosta para baixo, a outra perpendicularmente para dentro da encosta. A força peso sai assim como a diagonal de um retângulo construído com as duas componentes, como em toda decomposição de força.

Decomposição da força peso P⃗, que age sobre o trenó, na componente F⃗_1 ao longo da encosta e na componente F⃗_2 perpendicular à encosta

A componente azul tracejada F→1 puxa o trenó para baixo pela encosta, enquanto a outra, F→2, o pressiona contra a neve. Por si só ela não move nada, porque a neve não deixa o trenó passar. Da força peso inteira, portanto, só a parte F1 põe o trenó em movimento, o que responde à primeira pergunta.

Quais são os módulos das componentes? A força peso, a componente F→2 e o segmento cinza tracejado da ponta de F→2 até a ponta de P→ formam um triângulo retângulo com o ângulo reto na ponta de F→2. A força peso é nele a hipotenusa e o ângulo no centro de massa entre ela e a componente F→2 está na figura indicado por α, como a inclinação da encosta. Por que é assim, mostraremos daqui a pouco. Primeiro lembremos o seno e o cosseno: o seno de um ângulo num triângulo retângulo é a razão entre o cateto oposto e a hipotenusa, o cosseno é a razão entre o cateto adjacente e a hipotenusa. Oposto ao ângulo α está o cateto tracejado, de mesmo comprimento que F1, o cateto adjacente é F2, então

senα=F1P,cos⁡α=F2P.

Multiplicamos as duas igualdades pela força peso:

F1=P⋅senαF2=P⋅cos⁡α

Falta a justificativa prometida. A força peso é perpendicular ao chão horizontal, a componente F→2 é perpendicular à encosta. Imagine que giramos o chão e a encosta um ângulo reto. O chão vira a vertical, a encosta vira a perpendicular à encosta, e o ângulo entre elas, com o giro, não muda. O ângulo entre a força peso e a perpendicular à encosta é, por isso, igual ao ângulo entre o chão e a encosta. Vale, afinal, que dois ângulos agudos com lados perpendiculares entre si são iguais.

Quem não gosta de giros pode calcular. Prolonguemos a força peso verticalmente para baixo até o chão. A vertical, o chão e a encosta formam um triângulo retângulo com o ângulo α embaixo, junto ao chão, então junto à encosta ele tem o ângulo 90° − α. A perpendicular à encosta forma com a encosta um ângulo reto e, por isso, se desvia da vertical em 90° − (90° − α) = α.

Conferimos nos casos extremos que isso está certo. No chão horizontal, α = 0°, senα = 0 e cos α = 1. A componente ao longo da encosta desaparece e toda a força peso comprime o apoio, exatamente como deve ser. Quanto mais íngreme a encosta, maior o seno e mais forte o trenó é puxado para baixo. Essa é a resposta à segunda pergunta.

Experimentemos com o trenó do Vítor, de massa 10 kg, numa encosta com inclinação de 30°. A força peso é

P=m⋅g=10kg⋅9,81m/s2=98,1N.

Substituímos sen30° = 0,5 e cos 30° ≈ 0,866:

F1=98,1N⋅0,5=49,05NF2=98,1N⋅0,866≈85N

Atenção, 49,05 N + 85 N não é 98,1 N. Afinal, somamos as componentes como setas, não como números.

Numa prova costuma acontecer de alguém trocar o seno e o cosseno. Você não precisa lembrar qual vai para onde, basta pensar no chão horizontal. Ali a componente ao longo da encosta precisa desaparecer, e zero em 0° quem dá é o seno, não o cosseno. A componente ao longo da encosta é, portanto, a do seno.

Força normal na encosta

A neve age sobre o trenó com a força normal N→, e ela é sempre perpendicular ao apoio, aqui, portanto, perpendicular à encosta, para fora. Perpendicularmente à encosta o trenó não se move, não afunda nem sai voando. As forças nessa direção estão, por isso, em equilíbrio e a força normal compensa a componente F→2:

N=P⋅cos⁡α

Na encosta, a força normal é menor que a força peso. Para o trenó do Vítor é 85 N, não 98,1 N. Aqui se erra com mais frequência nas provas: quem transporta do piso horizontal a relação N = m · g calcula errado, na encosta, também o atrito.

Quanto mais íngreme a encosta, menor o cosseno, mais fraco o trenó pressiona a neve e menor é também o atrito. Numa parede vertical, cos 90° = 0 e a força normal desaparece por completo.

Trenó sem atrito

Comecemos por uma encosta perfeitamente lisa, por exemplo um trenó com lâminas de aço sobre gelo. Desprezamos a resistência do ar. A força normal compensa a componente F→2 e sobra uma única força ao longo da encosta, F1. Pela segunda lei de Newton, ela é igual à massa vezes a aceleração:

m⋅a=m⋅g⋅senα

Dividimos pela massa:

a=g⋅senα

A massa se cancelou. O trenó vazio e o trenó com o Vítor acelerariam do mesmo jeito na encosta lisa, assim como um corpo leve e um pesado caem com a mesma aceleração. O trenó de maior massa é puxado para baixo por uma força maior, é verdade, só que, na mesma medida, arranca com mais dificuldade.

Para uma encosta de inclinação 30°:

a=9,81m/s2⋅0,5≈4,9m/s2

Exatamente a metade da aceleração da gravidade. Os casos extremos também conferem: no chão horizontal, senα = 0 e o trenó não arranca sozinho, numa parede vertical, sen90° = 1 e a = g, ou seja, queda livre.

Trenó com atrito

Na neve de verdade, porém, o trenó é freado pelo atrito. A força de atrito Fat→ aponta ao longo da encosta para cima, contra o movimento, e é proporcional à força normal. Na encosta, porém, não entra na fórmula a força peso inteira, só a parte dela P · cos α, isto é, a força normal:

Fat=μ⋅N=μ⋅P⋅cos⁡α

Para lâminas em neve compactada tomamos μ = 0,1. Lâminas de aço ou de plástico deslizam na neve bem melhor do que, por exemplo, borracha. O trenó do Vítor é freado pela força

Fat=0,1⋅85N≈8,5N.

Todas as forças que agem sobre o trenó na encosta: força peso P⃗ com as componentes, força normal N⃗ e força de atrito F⃗_at, desenhadas para um atrito maior do que o do trenó na neve

A resultante ao longo da encosta é a componente F1 diminuída do atrito, cerca de 49,05 N − 8,5 N ≈ 40,6 N, e a aceleração é

a=40,6N10kg≈4,06m/s2.

Em geral: a segunda lei ao longo da encosta diz

m⋅a=m⋅g⋅senα−μ⋅m⋅g⋅cos⁡α,

e, quando dividimos a equação pela massa, obtemos a fórmula da aceleração na encosta com atrito:

a=g⋅(senα−μ⋅cos⁡α)

Também aqui a massa se cancelou. Depois de substituir 9,81 m/s2 · (0,5 − 0,1 · 0,866) sai de novo 4,06 m/s2.

Numa encosta mais suave, com inclinação de 10°, sen10° ≈ 0,174 e cos 10° ≈ 0,985, então

a=9,81m/s2⋅(0,174−0,1⋅0,985)≈0,74m/s2.

A inclinação é três vezes menor, mas a aceleração mais de cinco vezes. O atrito aqui tira a maior parte da componente ao longo da encosta. E numa encosta com inclinação de 5° o parêntese sairia negativo: o trenó em movimento desaceleraria até parar. Por que então ele fica parado, explica a próxima seção.

Quando o corpo fica parado

Vítor e o irmãozinho puxam o trenó de volta para cima e, num trecho mais suave do caminho, descansam um pouco. O trenó fica ali e não desce. Quem o segura é o atrito estático, que é sempre exatamente tão grande quanto é preciso para compensar a força que puxa o trenó para baixo, aqui a componente F1. No máximo ele pode ser μe · N, onde μe é o coeficiente de atrito estático. O trenó, portanto, fica parado enquanto

P⋅senα≤μe⋅P⋅cos⁡α.

A razão entre o seno e o cosseno se chama tangente, tgα=senαcos⁡α. Num triângulo retângulo é a razão entre o cateto oposto e o adjacente. A força peso se cancela e, depois de dividir pelo cosseno, sobra

tgα≤μe.

Se o corpo na encosta desliza ou não, não é a massa que decide, mas só a inclinação e a superfície. A calculadora devolve o ângulo a partir de uma tangente conhecida com a tecla tan−1.

Numa encosta de inclinação 5°, tg5° ≈ 0,087, menos que 0,1, e o atrito estático é ainda maior que o cinético. O trenó parado ali, por isso, não volta a sair sozinho. A fórmula com aceleração negativa descreve só a descida.

Daqui sai um experimento simples. Ponha um cubinho de madeira de brinquedo sobre uma tábua e levante lentamente uma ponta dela. Para madeira sobre madeira, μe ≈ 0,5, então o cubinho se põe em movimento quando tgα atinge 0,5, ou seja, mais ou menos a 27°.

O mesmo vale para um carro estacionado com as rodas travadas. Em asfalto seco, mesmo uma rua bem íngreme o segura. No gelo, porém, o coeficiente de atrito estático é de só cerca de 0,1 e tgα = 0,1 corresponde a uma inclinação de menos de 6°. Você encontra uma ladeira assim em quase toda cidade e o carro desliza pelo gelo, seja leve ou pesado.

O atrito cinético é menor que o estático. Com inclinação em torno de 20°, por isso, o cubinho fica parado sozinho, mas, depois de um toque, sai e continua acelerando, porque tg20° ≈ 0,36 é mais que o cinético μ = 0,3.

Exemplo de prova passo a passo

Uma caixa de maçãs de massa 20 kg está sobre uma tábua de madeira que liga obliquamente a carroceria de uma caminhonete ao chão. A tábua tem 2 m de comprimento e forma com o chão um ângulo de 35°. O coeficiente de atrito cinético da madeira sobre madeira é 0,3, o estático 0,5. A caixa sai sozinha? Qual será a aceleração dela e com que velocidade chega ao chão?

Anotamos os dados. m = 20 kg, α = 35°, s = 2 m, μ = 0,3, μe = 0,5, g = 9,81 m/s2. Procuramos a e v. As unidades são as fundamentais, não precisamos converter nada.

Desenhamos as forças. São as mesmas do trenó.

Ela sai? tg35° ≈ 0,70 é mais que μe = 0,5. O atrito estático não segura a caixa.

Decompomos a força peso. Para ter ideia em números: P = m · g = 196,2 N, sen35° ≈ 0,5736 e cos 35° ≈ 0,8192. Ao longo da tábua a caixa é puxada por F1 ≈ 112,5 N, contra a tábua é pressionada por F2 ≈ 160,7 N. Mais adiante, porém, calculamos com letras e só substituímos os números no fim.

Somamos as forças ao longo da tábua. Perpendicularmente à tábua as forças se equilibram, então N = m · g · cos α e a força de atrito é Fat = μ · m · g · cos α. Ao longo da tábua puxa para baixo F1 e para cima o atrito:

m⋅a=m⋅g⋅senα−μ⋅m⋅g⋅cos⁡α

Isolamos a aceleração. Depois de dividir pela massa:

a=g⋅(senα−μ⋅cos⁡α)

Velocidade no fim. A caixa parte do repouso e acelera uniformemente, então v2 = 2 · a · s e

v=2⋅a⋅s.

Substituímos. Deixamos a aceleração na calculadora sem arredondar:

a=9,81m/s2⋅(sen35°−0,3⋅cos⁡35°)≈3,22m/s2v≈2⋅3,216m/s2⋅2m≈3,6m/s

Conferência: a aceleração é menor que g · sen35° ≈ 5,6 m/s2 sem atrito, como deve ser.

A caixa sai sozinha, acelera cerca de 3,22 m/s2 e chega ao chão com velocidade de cerca de 3,6 m/s, quase 13 km/h. As maçãs mereciam que alguém as segurasse lá embaixo.

No plano inclinado, portanto, basta decompor a força peso e depois se calcula como no chão horizontal: perpendicularmente ao apoio o equilíbrio, ao longo dele a segunda lei. Todos os corpos, porém, até agora andaram em linha reta.

O próximo artigo, Força centrípeta, mostra o que é preciso para o trenó ou o carro fazerem uma curva.