Grandezas escalares e vetoriais
“Lá fora faz 20 °C.” Não é preciso acrescentar mais nada, todo mundo sabe se deve levar um casaco. A temperatura é descrita por um número e uma unidade. Mas tente indicar um caminho a alguém dizendo “ande 100 m”. A pessoa logo pergunta: para onde? Em frente, para a esquerda, de volta? Cem metros para o norte a levam até a estação de trem, cem metros para o sul a levam direto para o lago. Para uma grandeza assim, o número não basta, precisamos também de uma direção e de um sentido.
Escalar ou vetor?
As grandezas que ficam completamente descritas por um número com unidade se chamam escalares. São escalares a temperatura, o tempo, a massa ou a distância percorrida. Quando você diz que uma sacola tem massa de 5 kg ou que um filme dura 2 h, não precisa acrescentar mais nada. A massa não aponta nem para a esquerda nem para cima.
Chamamos de vetoriais as grandezas em que a direção e o sentido também importam. Um exemplo típico é a força. Quem já mudou um armário de lugar sabe que empurrá-lo contra a parede é uma coisa e puxá-lo para longe da parede é outra. A velocidade também é vetorial: um carro que anda a 90 km/h para Brno e um carro que anda a 90 km/h saindo de Brno têm velocidades de mesmo valor e, mesmo assim, cada um vai para um lado.
Reconhecemos um vetor pela seta sobre o símbolo. A força como vetor se escreve
O módulo da força é um escalar, por exemplo F = 300 N. O newton N é a unidade de força, e por enquanto não precisaremos saber mais nada sobre ele. Aqui a força nos serve principalmente como exemplo de vetor.
O vetor como seta
Desenhamos o vetor como uma seta. Ela aponta para onde o vetor aponta, e o seu comprimento corresponde ao módulo. Para podermos desenhar a seta, escolhemos uma escala, por exemplo que um centímetro no papel significa 100 N. Uma força de 300 N é então uma seta de três centímetros de comprimento, e uma força de 50 N, uma seta de apenas meio centímetro.
Na imagem vemos três setas vermelhas. Todas têm o mesmo comprimento, a mesma direção e o mesmo sentido, por isso representam um único e mesmo vetor
A seta azul
Adição de vetores
Pedro sai de um chalé e anda 3 km para o leste. Depois vira e anda mais 4 km para o norte. A que distância do chalé ele está?
Vamos desenhar. Na imagem, o norte está em cima, o leste à direita e cada quadradinho mede um quilômetro. O ponto laranja é o chalé, a seta vermelha é o primeiro trecho e a seta azul, o segundo.
A seta azul não parte do chalé, mas do fim da vermelha. Afinal, Pedro andou para o norte a partir do lugar aonde chegou depois de andar para o leste. É assim que os vetores se somam: deslocamos a segunda seta de modo que comece no fim da primeira. A soma é então a seta que vai do início da primeira seta ao fim da segunda. Na imagem ela é verde e mostra onde Pedro terminou. A animação mostra isso passo a passo: primeiro a seta azul sai do mesmo lugar que a vermelha, depois se desloca para o fim dela e só então aparece a verde.
Se somarmos, em vez de vetores, números comuns, obtemos 3 km + 4 km = 7 km. Sete quilômetros Pedro realmente andou, mas ele não está tão longe do chalé. Ele andou fazendo um desvio, a seta verde é um atalho, e por isso é mais curta que os dois trechos juntos.
Quanto mede a seta verde? A vermelha, a azul e a verde formam juntas um triângulo retângulo, isto é, um triângulo que tem um ângulo reto. Os dois lados que formam o ângulo reto se chamam catetos, e o terceiro, o mais longo, oposto ao ângulo reto, é a hipotenusa. No triângulo retângulo vale o teorema de Pitágoras: o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos. Os catetos medem 3 km e 4 km, de modo que, para a hipotenusa c, vale
Elevamos ao quadrado. A unidade também é elevada ao quadrado: quilômetro vezes quilômetro é quilômetro quadrado:
E extraímos a raiz quadrada:
Pedro está a 5 km do chalé. A seta que vai do lugar onde começamos ao lugar onde terminamos se chama, na física, deslocamento. Ao contrário dos quilômetros percorridos, ele é um vetor: além dos cinco quilômetros, diz também em que direção fica o chalé. Voltaremos à direção no fim do artigo.
Podemos escrever a soma como fazemos com os números, só que com setas. Quando somamos dois vetores
enquanto a soma dos módulos é
Regra do paralelogramo
Uma pessoa passeia com dois cachorros em guias. Cada um puxa para um lado, um com a força
As forças atuam no mesmo ponto, por isso o mais natural é desenhar as setas a partir de um início comum. Encontramos a força resultante pela regra do paralelogramo. Do fim de cada seta traçamos, em tracejado, uma paralela à outra. Assim se forma um paralelogramo, e a sua diagonal que parte do ponto comum é a soma procurada
Por que isso funciona? O lado tracejado da direita do paralelogramo tem o mesmo comprimento que a seta azul e é paralelo a ela. Ou seja, é a seta azul
A seta verde mostra para onde os cachorros puxam a pessoa. A força resultante também é chamada simplesmente de resultante. Como cada cachorro puxa um pouco para um lado, a força resultante é menor do que se os dois puxassem no mesmo sentido. Medimos o módulo dela na imagem, usando a escala. Por enquanto só sabemos calculá-lo em dois casos: quando as forças são perpendiculares entre si, como eram os dois trechos de Pedro, ou quando estão sobre uma mesma reta (isso vem logo a seguir).
Vetores sobre uma mesma reta
O mais fácil é calcular quando os vetores estão sobre uma mesma reta. Dois amigos empurram um carro quebrado. Um empurra com a força de 300 N, o outro com a força de 250 N, os dois para a frente. Colocamos as setas uma após a outra e obtemos uma seta cujo comprimento é simplesmente a soma:
A seta vermelha e a azul são as forças dos dois amigos, e a verde é a força resultante.
Outra situação: um cabo de guerra. Uma equipe puxa para a direita com a força de 300 N e a outra, para a esquerda, com a força de 250 N. As duas forças atuam sobre o nó no meio da corda e apontam exatamente em sentidos opostos. As setas partem do nó para lados opostos e, por isso, a força resultante é a diferença:
A força da primeira equipe está na imagem em vermelho, a da segunda em azul e a força resultante em verde. A força resultante de 50 N aponta para a direita, para o lado da equipe mais forte. Se as duas equipes puxassem com a mesma força, a força resultante seria nula e as forças se equilibrariam. Só quando os vetores apontam no mesmo sentido ou exatamente em sentidos opostos é que os seus módulos se somam e se subtraem como números comuns.
Vetor oposto e multiplicação por um número
O vetor que tem o mesmo módulo que
É assim que termina o cabo de guerra de duas equipes igualmente fortes. Graças ao vetor oposto também é possível subtrair: subtrair
Também podemos multiplicar um vetor por um número. O vetor verde
Na física isso significa: se dobramos uma força e a deixamos atuar na mesma direção e no mesmo sentido, obtemos a força
Seno e cosseno
Muitas vezes vale a pena decompor um vetor oblíquo em dois vetores perpendiculares, por exemplo um horizontal e um vertical. Para isso precisamos apresentar dois novos conceitos, o seno e o cosseno. Os dois partem do triângulo retângulo.
O triângulo da imagem tem o ângulo reto no vértice C, e a hipotenusa é o lado preto c. Vamos olhar para o ângulo α no vértice A. O cateto vermelho a fica oposto a ele, por isso é chamado de cateto oposto. O cateto azul b forma o ângulo α junto com a hipotenusa, e é chamado de cateto adjacente.
O seno do ângulo α é a razão entre o cateto oposto e a hipotenusa, e o cosseno é a razão entre o cateto adjacente e a hipotenusa:
Para que serve uma razão assim? Dobre o tamanho do triângulo inteiro. Todos os lados ficarão duas vezes mais longos, mas os ângulos permanecem iguais. A razão
A hipotenusa é o lado mais longo do triângulo retângulo, de modo que as duas razões dão sempre menos que um. O seno e o cosseno de um ângulo agudo nunca ultrapassam o número um.
O seno e o cosseno de qualquer ângulo são calculados pela calculadora, na qual você encontra as teclas sen e cos. Mas cuidado para que a calculadora calcule em graus. Se no visor você não vê DEG, mas RAD ou GRAD, ela calcula em outras unidades de ângulo e saem resultados absurdos. É um dos erros mais frequentes nas provas. No site você pode usar a calculadora de seno ou a de cosseno, e as outras propriedades das duas funções você encontra no artigo Seno e cosseno.
Três ângulos sem calculadora
Para os ângulos de 30°, 45° e 60° podemos calcular o seno e o cosseno até sem calculadora. Basta um triângulo equilátero e um quadrado.
À esquerda vemos um triângulo equilátero de lado 2. Todos os seus ângulos medem 60°. A altura tracejada o divide em dois triângulos retângulos congruentes. O vermelho tem hipotenusa 2, cateto de baixo 1, porque é metade do lado, e ângulos de 60° embaixo e de 30° em cima, porque a altura divide o ângulo de cima ao meio. Calculamos o comprimento da altura pelo teorema de Pitágoras:
Com o ângulo de 60° é o contrário, oposta a ele fica a altura
À direita está um quadrado de lado 1, dividido por uma diagonal. A diagonal divide o ângulo reto ao meio, então o triângulo azul tem um ângulo de 45°, os dois catetos de comprimento 1 e a hipotenusa
Tudo junto:
| ângulo | seno | cosseno |
|---|---|---|
| 30° | ||
| 45° | ||
| 60° |
É interessante que o seno de 30° é o cosseno de 60° e vice-versa. Não é coincidência: o cateto oposto de um ângulo agudo é o cateto adjacente do outro.
Decomposição de um vetor em componentes
Zé puxa a irmãzinha num trenó. Ele segura a corda na mão, e por isso ela não fica na horizontal, mas inclinada para cima, formando com o chão um ângulo de 30°. Zé puxa a corda com a força de 100 N. Mas o trenó anda pelo chão, não obliquamente pelo ar. Quanto dessa força realmente vai para a frente?
Substituímos a força oblíqua
Na imagem estão a força verde
A componente vermelha, o lado tracejado da direita e a força verde formam um triângulo retângulo. A hipotenusa é a força
Multiplicamos as duas equações pelo módulo da força F e obtemos as fórmulas para os módulos das componentes:
Substituímos os valores do Zé. A componente horizontal é
e a vertical
Para a frente, o trenó é puxado com apenas cerca de 86,6 N dos cem. A componente vertical restante, de 50 N, alivia um pouco o peso do trenó, que por isso pressiona menos a neve.
Repare que 86,6 N + 50 N dá mais do que 100 N. Isso não é erro, as componentes são vetores e não se somam como números. Só se podem somar as setas, uma após a outra, e elas dão de volta os 100 N originais.
E se o Zé levantar a corda mais alto, para 60°? Então
Para a frente, ele puxaria só com metade da força. Quanto mais inclinada a corda, menor a parte da força que vai para a frente e mais ela alivia o peso do trenó.
Composição das componentes
Até agora decompusemos a força. Muitas vezes é preciso o contrário: conhecemos duas componentes perpendiculares e queremos o vetor inteiro. As componentes são os catetos de um triângulo retângulo e o vetor é a sua hipotenusa, de modo que calculamos o módulo pelo teorema de Pitágoras:
Vamos verificar isso no trenó. Substituímos as componentes:
Elevamos ao quadrado:
E extraímos a raiz quadrada:
Obtivemos a força original. O pequeno desvio sob a raiz surgiu porque arredondamos o cosseno para 0,866.
Agora podemos voltar ao Pedro e à sua caminhada. O deslocamento dele tem componentes de 3 km para o leste e 4 km para o norte, e já conhecemos o módulo, 5 km. Falta a direção. Chamemos de α o ângulo que a seta verde forma com a vermelha, ou seja, com a direção leste. A componente norte, de 4 km, fica oposta a ele e a hipotenusa mede 5 km:
Os quilômetros se cancelaram, o seno é um número comum, sem unidade. A calculadora encontra o ângulo cujo seno é 0,8 com a tecla sen−1 (costuma ficar acima da tecla sen; no site serve a calculadora de arco seno):
O deslocamento de Pedro é, portanto, de 5 km numa direção que se desvia do leste em 53° para o norte. Módulo, direção e sentido: é só disso que um vetor precisa. Se Pedro quisesse voltar pelo caminho mais curto, andaria pelo vetor oposto: 5 km no sentido contrário, ou seja, para o sudoeste, um pouco mais para o sul do que para o oeste.
O deslocamento nos acompanhará por toda a cinemática. No próximo artigo, Movimento e repouso, vamos compará-lo com a distância percorrida e mostrar por que uma corredora que dá uma volta inteira em torno da quadra, na verdade, não se deslocou para lugar nenhum.